Oncologia & Terapia Antitumoral
A exposição prolongada a partículas finas (PM2.5) provenientes da fumaça de incêndios florestais apresenta uma toxicidade significativamente maior por unidade de exposição do que níveis equivalentes de poluição oriundos de fontes tradicionais, como o trânsito e a indústria. É o que demonstram dois estudos de larga escala conduzidos por pesquisadores da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, publicados em setembro de 2026 nas revistas científicas Nature Communications e The Lancet Oncology.
A descoberta reforça que, além da quantidade inalada, a origem da poluição atmosférica é um fator determinante para os danos à saúde. A fumaça dos incêndios deixou de ser um problema ambiental apenas regional para se tornar um desafio de saúde pública de ampla escala, expondo dezenas de milhões de pessoas a partículas microscópicas capazes de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea.
Impacto na sobrevida do câncer de pulmão
O primeiro estudo, publicado no periódico The Lancet Oncology, investigou como a exposição em longo prazo ao PM2.5 afeta a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão. A pesquisa analisou dados de 414.016 adultos com 65 anos ou mais, a partir da base SEER-Medicare, cruzando as informações com estimativas específicas de exposição a partículas geradas por incêndios, desenvolvidas em parceria com a Stanford University.
Os resultados revelaram uma toxicidade desproporcional: embora o PM2.5 associado aos incêndios florestais represente apenas cerca de 4% da exposição total a essas partículas, ele foi responsável por aproximadamente 17% da mortalidade relacionada à exposição total ao PM2.5 no grupo analisado. Além disso, a pesquisa identificou que um maior número de dias com fumaça e períodos prolongados de exposição estão diretamente associados a piores desfechos de sobrevida.
"Pacientes com câncer de pulmão já são medicamente vulneráveis, e nossas descobertas sugerem que a fumaça de incêndios florestais pode colocá-los em um risco ainda maior. À medida que a poluição do ar relacionada a incêndios se torna mais comum, reduzir a exposição pode se tornar um componente cada vez mais importante no tratamento do câncer e no planejamento de sobrevida."
Min Zhang, pesquisador do Departamento de Medicina Ambiental da Icahn School of Medicine at Mount Sinai e principal autor dos estudos
Aumento nas internações cardiopulmonares
O segundo estudo, publicado na Nature Communications, focou nos impactos hospitalares. Os investigadores analisaram registros de internações de residentes de 20 estados norte-americanos, coletados entre 2006 e 2019, que abrangeram mais de 57 milhões de internações cardiovasculares e quase 33 milhões de internações por doenças pulmonares.
Constatou-se que a exposição prolongada ao PM2.5 específico de incêndios esteve consistentemente ligada a maiores aumentos no risco de hospitalização do que o PM2.5 de outras origens, mesmo quando comparados em concentrações equivalentes. As condições exacerbadas pela exposição incluíram:
- Insuficiência cardíaca e doença isquêmica do coração;
- Hipertensão;
- Asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC);
- Pneumonia e outras enfermidades respiratórias.
As associações de risco mostraram-se particularmente fortes entre populações de minorias raciais e étnicas, residentes de áreas metropolitanas e indivíduos em comunidades com menores níveis de escolaridade e maior vulnerabilidade socioeconômica.
Ponto de atenção clínica: para pacientes com câncer de pulmão ou doenças cardiopulmonares crônicas, as evidências sugerem que o monitoramento rigoroso da qualidade do ar e a limitação da exposição durante eventos de fumaça devem ser considerados pelos profissionais de saúde como parte integral do manejo preventivo e cuidado abrangente.