Marketing Médico & Resolução CFM
Durante anos, a ideia de publicar um Reels direto da sala de operação foi tratada como o santo graal do marketing médico. A lógica parecia simples: gravar, editar e publicar, gerando milhares de visualizações que, à primeira vista, reforçariam a credibilidade do profissional.
Entretanto, a realidade ética e legal é outra. A Resolução CFM nº 2.336/2023 deixa claro que uma cirurgia não é um cenário de produção audiovisual; é um ato médico que deve permanecer livre de interferências externas. O desafio, portanto, não é "posso filmar?", mas "como usar o centro cirúrgico para educar sem transformar o procedimento em propaganda?"
Separando a câmera da cirurgia: a estratégia em três fases
Antes da cirurgia o médico pode criar conteúdo explicativo sobre a indicação, a técnica e as expectativas. Uma fala curta, como "Hoje vamos falar sobre blefaroplastia e por que nem todo excesso de pele exige a mesma abordagem", já gera valor. Nesse momento, é possível registrar a preparação do ambiente, os equipamentos e a equipe - tudo sem interromper o fluxo clínico.
Durante a cirurgia a regra é clara: nenhuma equipe externa pode interferir, nem o tempo pode ser prolongado para captar imagens. O planejamento de marketing deve ser concluído antes da primeira incisão, definindo quais elementos visuais (por exemplo, o painel de monitoramento ou a organização da sala) podem ser captados sem comprometer a segurança.
Depois da cirurgia abre-se a maior janela de oportunidade. O médico sai do bloco, reflete sobre o caso e produz conteúdo que aborda indicação, avaliação individual, limitações, recuperação e possíveis complicações. Essa abordagem demonstra conhecimento profundo e cria autoridade que vai muito além de um simples close de bisturi.
Quando surgem imagens já existentes, a solução não está apenas no consentimento do paciente. É preciso garantir anonimização, respeito à privacidade e conformidade com as normas do CFM e do CREMESP. O consentimento não elimina a necessidade de avaliação ética e de proteção de dados.
A lógica do "conteúdo a qualquer custo" deve ser abandonada. O CFM considera sensacionalismo a divulgação que enaltece o médico ou o estabelecimento de forma exagerada. Pergunte sempre: "Esse conteúdo está educando o paciente ou está transformando o ato médico em entretenimento?"
Uma produção sofisticada pode ser feita sem mostrar a cirurgia. Imagine um vídeo sobre blefaroplastia dividido em cenas de preparação, ambiente, explicação do médico, animações anatômicas e pós‑operatório. O resultado? O público vê como o médico pensa, não apenas o que ele faz.
O centro cirúrgico, por si só, já carrega atributos de precisão, tecnologia e responsabilidade. Utilizá‑lo como pano de fundo visual - o médico entrando, conferindo equipamentos, dialogando com a equipe - cria um ativo de branding poderoso sem violar nenhuma norma.
Por fim, a inteligência artificial pode acelerar todo o processo: gerar roteiros, criar animações, adaptar formatos e produzir legendas. Mas a IA nunca deve inventar conhecimento médico nem simular procedimentos que nunca aconteceram.