Oncologia & Terapia Antitumoral
Um estudo liderado pelo Sanford Burnham Prebys Medical Discovery Institute, publicado na revista Science Advances, revelou um mecanismo biológico que explica como o excesso de açúcar no sangue (hiperglicemia) ajuda as células cancerígenas a escaparem da vigilância do sistema imunológico. A descoberta aponta possíveis alvos farmacológicos para desativar essa proteção e aumentar a eficácia das imunoterapias.
Sabe-se na literatura médica que níveis elevados de glicose no sangue, associados a condições como diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, estão ligados a um maior risco de desenvolvimento de câncer e a piores prognósticos após os tratamentos. No entanto, os mecanismos celulares diretos que justificavam essa relação ainda não estavam totalmente elucidados.
O "escudo" celular e o microambiente tumoral
Para investigar o fenômeno, os cientistas cultivaram células sob diferentes condições de rigidez mecânica e disponibilidade de nutrientes, simulando o ambiente físico e metabólico encontrado no interior dos tumores. Os tumores primários tendem a ser mais rígidos do que os tecidos normais ao redor, forçando as células a se adaptarem fisicamente e metabolicamente.
A equipe observou que, quando expostas a um meio fisiológico com alta concentração de glicose, as células cancerígenas utilizam os carboidratos extras para engrossar uma camada protetora em sua superfície. Essa estrutura celular, chamada de glicocálix, é composta por glicoconjugados (carboidratos ligados a proteínas ou lipídios) e atua como uma camuflagem, dificultando que as células de defesa do organismo reconheçam e destruam o tumor.
O papel central da proteína HSF1
Ao analisar quais proteínas se tornavam mais ativadas durante a hiperglicemia, os pesquisadores identificaram o fator de choque térmico 1 (HSF1), uma proteína que geralmente ajuda as células a sobreviverem a altos níveis de estresse. Os testes demonstraram que a hiperglicemia só conseguia espessar o glicocálix e facilitar a evasão imunológica quando a HSF1 estava presente no interior do microambiente tumoral.
"Nossas descobertas indicam que alterações na função mitocondrial levam à síntese de moléculas derivadas de açúcar na superfície celular que dificultam o reconhecimento e a morte das células cancerígenas pelo sistema imunológico. Agora que sabemos disso, cria-se uma enorme oportunidade de descoberta de medicamentos para retirar o revestimento que as protege."
Kevin Tharp, autor principal do estudo e pesquisador do Programa de Metabolismo e Microambiente do Câncer no Sanford Burnham Prebys
Os pesquisadores acreditam que medicamentos desenhados para inibir a proteína HSF1 podem, futuramente, "despir" os tumores dessa camada protetora. Segundo os autores, essa seria uma estratégia altamente eficaz para combater doenças metastáticas e mitigar as vantagens que dietas ricas em açúcares fornecem ao câncer.
Ponto de atenção clínica: os achados derivam de estudos experimentais em biologia celular e revelam novos alvos terapêuticos biológicos, mas ainda não correspondem a medicamentos ou tratamentos oncológicos clinicamente aprovados.